Ovodoação - Receptora de Óvulos

Os aspectos emocionais da doação de óvulos muitas vezes não são discutidos, mas são especialmente sentidos por aquelas pacientes que procuram esta modalidade de tratamento. No meu entendimento, a maior dificuldade em se decidir por este tratamento reside justamente nos aspectos emocionais. Enquanto estas questões não forem assimilidas e resolvidas, não será possível realizar o tratamento de maneira eficaz.

Procurei resumir as questões que mais recebo durante as consultas e colocar respostas para auxiliar na decisão sobre realizar ou não os tratamentos com óvulos doados.



1. Como encarar a necessidade de receber óvulos doados como a única chance de engravidar?

  • Esta talvez seja a questão mais importante envolvida no processo de decisão por receber óvulos doados. Não são momentos fáceis, bem como não serão fáceis as escolhas. A primeira reação é de impotência, de incapacidade e de questionamentos sobre seu papel como mulher. Mas não é o fim do mundo. Procure observar os pontos positivos, ser mãe é muito mais que ser dona de um código genético. Haverá momentos em que o seu coração irá sofrer com a idéia de não poder ter uma criança com seu DNA, com as suas características e de sua família. Mas, e se eu disser que isso não é verdade? E se eu disser que, mesmo com óvulos doados, seu DNA pode prevalecer e ser herdado?

    Antes de voltarmos a este assunto (leia mais abaixo sobre epigenética), quero dizer que ser receptora de óvulos é uma dádiva. Primeiro porque alguém que doa óvulos passa por um processo sofrido, de aplicação de hormônios, cirurgia e de doação de uma parte de si mesma. Não é fácil, mas alguém se dispôs a te ajudar.

    Pense também que na minha experiência nestes anos todos lidando com a infertilidade, nunca vi uma receptora de óvulos ter se arrependido de ter feito. Após receber óvulos, engravidar e dar à luz, a origem do óvulo pouco importa. Posso afirmar que temos 100% de satisfação; ninguém que tenha tido filhos de óvulos doados jamais se arrependeu.

    Certamente será importante compartilhar essa decisão com pessoas de sua confiança. O apoio de um psicólogo é fundamental. Profissionais com larga experiência no tema podem ajudar na decisão.

2. Vou amar a criança da mesma forma que amaria se fosse originária do meu óvulo?

  • Certamente vai. Garanto que sim. O óvulo é seu, você o recebeu em seu útero e deu todas as condições para que a vida pudesse ser criada e se desenvolvesse dentro de você. Aposto que quando ouvir o coração do embrião no primeiro ultrassom, bem no início da gravidez, você irá saber o que é o amor materno. Deste momento em diante, sua vida será outra. Você irá sentir a criança se desenvolver em seu útero, irá chorar de emoção com o primeiro chute que receber e depois que a tiver em seus braços, irá se perguntar como é possível amar alguém tanto assim. É inexplicável. Nada que eu escreva aqui pode definir o que você vai sentir. Infelizmente (ou felizmente), não há como saber antes; você terá que passar por tudo isso para depois me dizer que estou certo

3. Será que vou me sentir como uma mãe "real"?

  • O que é ser mãe? Alguém pode te dizer? Só sabemos o que é ser filho. Até que tenhamos a chance de ser pais, não saberemos realmente como é este sentimento. Um filho adotivo, um filho nascido de óvulo doado ou nascido do seu próprio óvulo têm o poder de te despertar para o mesmo sentimento, não faz a mínima diferença. Sim, você vai se sentir uma mãe de verdade, vai defender e proteger o seu filho até as últimas consequências, vai deixar de fazer coisas que gosta para fazer pelo seu filho. É muito mais do que apenas um óvulo: é uma vida que você gerou.


4. Serei a mãe biológica da criança concebida através de doação de óvulos?

  • Sim, lógico! O corpo da mãe que gesta é o responsável pela nutrição e crescimento do feto. Seu sangue e o dele estarão em íntimo contato, através da placenta. Vocês trocarão nutrientes, substâncias químicas, hormônios e emoções. Sob o aspecto legal, nossa legislação diz que é mãe quem dá à luz. O filho é seu.

5. Sou mesmo azarada, justo comigo! É comum o tratamento de ovodoação?

  • Não diria que é azar, pelo contrário. É um tratamento muito mais comum do que você imagina. Aproximadamente de 30 a 40% das minhas pacientes estão realizando tratamento de ovodoação. Imagine que após 45 anos de idade as chances de engravidar com óvulos próprios são de menos de 1%, ou seja, qualquer mulher grávida após esta idade provavelmente realizou tratamento de ovodoação. Muitas não contam, preferem preservar esta infomação, mas certamente há alguém próximo de você que passou ou está passando por situação idêntica.

6. Devemos contar ou não contar ao nosso filho que ele se originou de um óvulo doado?

  • Não há uma regra para isso. Ele não será mais ou menos filho se souber de sua real origem. Meu conselho é que esperem alguns anos para decidir se contará ou não. Somente depois do nascimento e de uma certa idade é que vocês poderão sentir se vale a pena contar, é preciso conhecer seu filho e a vocês mesmos para decidir. Caso decidam por contar, aconselho que façam quando a criança tenha idade suficiente para compreender, o que exige uma certa maturidade. Geralmente por volta dos 10 anos de idade isso já é possível. Em muitas situações, até mais cedo.

7. Como as doadoras são escolhidas?

  • As doadoras normalmente nos procuram indicadas por outros pacientes. Sensibilizadas pela necessidade de um casal ter filhos, sem outra opção que não receber óvulos, estas pessoas doam o bem mais precioso que possuem: uma parte de si mesmas. São almas altruístas, não recebem nada para fazer, apenas o agradecimento anônimo de alguém que nunca vai conhecer. É preciso coragem e disposição: precisam aplicar injeções de hormônios, realizar exames, cirurgia e passar por uma rotina extenuante. Sempre escolhemos mulheres com menos de 30 anos, sem doenças genéticas e sem doenças infecciosas. São também analisadas quanto ao seu perfil psicológico e caráter.


8. Como faço para encontrar uma doadora?

  • No Brasil as normas do Conselho Federal de Medicina exigem que a seleção da doadora seja feita pela clínica. Você não pode trazer alguém. A doadora deve ser anônima, para sua total segurança. No entanto, ela irá preencher um extenso questionário que irá conter suas características físicas, as de seus ancestrais, perguntas de cunho psicológico e outras informações relevantes para te auxiliar na escolha. Selecionaremos a melhor opção, mas caso não te agrade, você pode declinar. Continuaremos procurando, até que você aprove a escolha.

9. Quantos embriões são considerados como um bom número em um ciclo de óvulos doados?

  • Não se apegue tanto à quantidade. Basta um óvulo bom para que a gravidez aconteça. Porém, esperamos que a doadora tenha entre 5 e 10 óvulos para que no final possamos ter 3 ou 4 embriões, 2 para transferir e os demais para deixar congelados. Vale lembrar que isso é uma expectativa, não significa que sempre ocorre, mas nem por isso a gravidez não ocorrerá. Quantidade não é igual a qualidade, nunca.


10 - Posso escolher uma doadora que more em uma cidade diferente da minha?

  • A resposta é sim, na maioria dos casos. Procuramos selecionar pessoas de cidades diferentes, ou de cidades muito populosas. Temos que respeitar a norma de um nascimento de criança de sexo diferente para cada um milhão de habitantes da região.

11- Quais são as taxas de gravidez sucesso esperado com óvulos doados?

  • As taxas de sucesso (por transferência de embriões) estão entre 55% e 65%. A taxa de gravidez cumulativa de pacientes após 3 ciclos de doação de óvulos atinge mais de 90%. A taxa de aborto espontâneo é ao redor de 15%, muito menor do que os quase 50% de aborto para mulheres que engravidam com seus próprios óvulos, com mais de 42 anos.

12 - O que a "Epigenética" tem a dizer sobre a criança concebida através de doação de óvulos?

  • Primeiro temos que explicar o que é "Epigenética". Ela é uma área nova da ciência e diz respeito aos efeitos do meio ambiente sobre os genes. O ambiente no caso de uma gestação é o útero da mulher. Assim, tudo o que ocorrer durante sua gravidez vai influenciar seus genes. Não importa qual a origem, seu organismo e seu útero vão determinar a forma como os genes recebidos a partir do óvulo doado serão expressos. Assim, a criança nascida de seu útero será emocionalmente, fisicamente e psicologicamente diferente da criança que nasceria se fosse concebida no útero da doadora do óvulo. Herdará de você (e não de quem doou os óvulos) características da sua personalidade, dom artístico, preferência musical ou por comidas diferentes etc. Assim, essa história de que geneticamente a criança não tem sua carga genética, caiu por terra.
  • Clique aqui para ler mais sobre Epigenética.

Referências na Literatura Médica:

  • "Assisted reproduction: the epigenetic perspective". B Horsthemke, M Ludwig - Human reproduction update, 2005.
    "Epigenetics, brain evolution and behaviour". EB Keverne, JP Curley - Frontiers in neuroendocrinology, 2008.
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