Cross match e ILP
A polêmica da aloimunidade como causa de falhas de implantação e/ou abortos de repetição

Antes de avançarmos no tema, vamos a algumas definições importantes:

  • Alomunidade: Nada mais é do que a imunidade de um indivíduo em relação a outro
  • Abortamento de repetição: três ou mais abortos espontâneos consecutivos.
  • Falha de implantação: ausência de gestação após dois ou mais tratamentos de fertilização in vitro, sendo que neles foram transferidos ao menos dois embriões ditos "top quality" (qualidade ideal) em cada tratamento.
  • Cross Match: Exame de sangue feito para se determinar a compatibilidade imunológica entre doador e receptor de um órgão ou tecido.

Após este pequeno glossário, podemos prosseguir. Existe uma grande discussão no meio médico sobre o papel da aloimunidade como causadora dos abortos de repetição e/ou das falhas de implantação.

Para que uma mulher engravide, seu organismo deve aceitar que o embrião literalmente invada seu útero, corroendo os tecidos em busca de um suprimento sanguíneo. Isto é - sumariamente - a dita implantação embrionária. No entanto, o embrião possui 50% de carga genética desconhecida ao organismo da mãe, já que ele é constituído também por material genético do pai. Temos então um grande mistério: como pode o organismo materno aceitar a pesença de um material que possui tanta diversidade se comparado ao seu próprio?

Teoricamente, deveria acontecer uma rejeição deste material (embrião). Tentou-se explicar essa não rejeição alegando-se que a mãe teria uma queda da imunidade durante a gestação, o que não é verdade (até ocorre o contrário, há um aumento da imunidade). Por consequência, acredita-se que um desbalanço nesta resposta imune, que ficaria muito exacerbada, é que pode levar às falhas de implantação e/ou abortamentos.

Assim, deve existir algum mecanismo para que o tecido paterno seja reconhecido e então não rejeitado pela mãe. Este mecanismo pode ser o sistema HLA (Human Leukocyte Antigen). Por meio deste sistema, o organismo da mãe produziria algumas substâncias (chamadas de citocinas, as interleucinas 4 e 10) que possuem efeito anti-inflamatório e protegeriam o tecido fetal, garantindo a evolução da gestação.

Caso tenhamos mulheres com alteração neste sistema, a produção de citocinas se dá de maneira antagônica, levando a um aumento de fatores pró-inflamatórios (e não anti-inflamatórios, como seria desejado), principalmente das células NK (Natural Killer, ou CD-56 plus).

Neste ponto entra o Cross Match. O exame é feito para saber se a mãe "reconhece" o material genético do pai, ou seja, para saber se o casal é compatível. Se forem compatíveis, o Cross Match dará POSITIVO.

Agora, se o Cross Match dá um resultado NEGATIVO, significa que o organismo materno não reconheceu o tecido paterno. Teoricamente, ao engravidar, a mãe então rejeitaria o embrião, resultando em uma falha de implantação e/ou abortamento.

Neste ponto vem a ideia da ILP: Injeção de Linfócitos Paternos (a famosa "vacina de imunidade"). Seria a injeção dos linfócitos do pai no organismo da mãe (que pode ser feita de uma a quatro vezes). Os linfócitos são as células imunologicamente ativas do sangue e levariam o organismo da mãe a produzir uma resposta imune, que faria com que ela passasse a "reconhecer" estas células e não as atacasse mais. O Cross Match então passaria a ser POSITIVO e este seria o momento ideal para engravidar.

Tudo isso funcionaria, em teoria...

O que diz a ciência? E o que dizem as autoridades governamentais?

Os estudos científicos com maior poder estatístico são chamados de metanálises. Estes estudos seriam uma análise de vários estudos anteriores sobre o mesmo assunto, juntando e compilando seus resultados. O que se observou é que as metanálises sobre o uso da ILP não mostraram melhora sobre as chances de gravidez ou sobre a diminuição do risco de abortamentos em pacientes que tomaram a dita vacina.

Para complicar ainda mais a situação, o FDA (Food and Drug Administration), órgão do governo Estadunidense similar ao nosso Ministério da Saúde, vetou o uso da ILP na prática médica clínica, por considerar este tratamento experimental e sem comprovação científica. Lá nos EUA a ILP só pode ser feita em pesquisas. Na Europa o quadro é ainda pior: é proibido o uso da ILP até mesmo em pesquisas.

Temos o uso da ILP liberado no Japão, Israel, alguns países Escandinavos e no Brasil.

Qual a minha opinião sobre o tema?

Realmente acredito que o fator imunológico tenha a ver com as falhas de implantação e com os abortamentos de repetição, mas não acredito que seja por meio deste mecanismo ativado pelo sistema HLA. A ciência ainda não evoluiu a ponto de nos dizer onde estaria o probelma imunológico nestes casos e ficamos sem saber como tratar.

Sobre o Cross Match, tenho uma opinião ainda mais radical. Se fizessemos o exame na população geral, aproximadamente 98% apresentariam o teste NEGATIVO. Como pode ser isso? Mesmo em mulheres que já tiveram muitos filhos o exame também daria NEGATIVO...

Assim, não acredito em Cross Match e menos ainda em ILP. Não recomendo que meus pacientes passem por estes testes e tratamentos, pois não existem comprovações científicas, são caros e podem mesmo levar a danos ao organismo da mãe (risco de processos alérgicos, transmissão de infecções e outros).

Referências na Literatura Médica:

  • Porter, T Flint; LaCoursiere, Yvette; Scott, James R. Immunotherapy for recurrent miscarriage. Cochrane Database of Systematic Reviews. In: The Cochrane Library, Issue 08, Art. No. CD000112.
  • FDA (Food and Drug Administration): Lymphocyte Immunetherapy (LIT) Letter, 2002.
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